Por mais uma noite ela se via ao lado de alguém que não conhecia. Não conhecia como pensou conhecer o primeiro. Na realidade, seu coração era o único que ela entendia e conhecia por inteiro... qualquer outra parte de qualquer coisa, ela apenas via e aprendia sobre. Ele mal a tocava, mas estava lá, ao lado dela, simples assim. Ao fundo todos conversavam num silêncio alto para os dois que simplesmente se calaram para ouvir o que o universo e o vento tinham a lhes dizer. Ela estava vivendo tudo (ou quase tudo) o que sempre sonhou: um céu estrelado, um cigarro na mão, silêncio e um corpo ao lado lhe esquentando. Ele não precisou beija-la para fazer com que ela se apaixonasse. Ele foi mais do que ela podia acreditar: alguém com quem ela sempre sonhou, finalmente era real, e ela não precisou nem ao menos dormir.
Ela já havia se acostumado tanto a ser fria e simplesmente sozinha que não soube lidar com alguém ao seu lado e a única coisa que soube falar foi “olha o formato das nuvens... o céu está tão bonito hoje.” Aquele céu tinha algumas poucas nuvens que formavam riscos brancos num tapete negro com pontos iluminados... “eu pintei para você” foi a resposta pela qual ela sempre esperou, sempre sonhou e nunca chegou nem perto de ouvir. E assim, como um suspiro, ela sorriu. Sorriu porque viu que realmente não estava sonhando. Sorrio, porque sentiu que quando se quer algo, por mais bobo, infantil ou efêmero que seja, queremos, e por querer devemos correr o máximo que consigamos até não aguentar mais pois é exatamente nessa hora que teremos alcançado.Quanto tempo ela não conseguia se sentir feliz completamente? Aquelas únicas horas, as mais inocentes e encantadoras que podia ter, eram tão reais quanto os sonhos que ela sempre inventava para não precisar viver. E aquele corpo quente, finalmente esquentou o que ela chamava ainda de coração, mas que já não batia a muito tempo. Ela esperou tanto e com tanta sede por aquele momento, com quem quer que fosse, que quando o teve, não conseguiu seguir o roteiro e simplesmente se seguiu.
Mas ela não queria se machucar mais uma vez e ter seu coração parado de novo. Simplesmente levantou e disse que já era tarde e que o travesseiro a esperava. Levantou-se do chão, olhou para o céu, desejou que aquele sentimento bom nunca mais acabasse, deu um beijo no rosto e se retirou, tão facilmente quanto sonhava.
Ela não se machucou pois seu coração nunca havia batido, e tudo o que viveu até aquele momento eram apenas arranhões em sólido maciço. Ela se levantou pois deitada ela nunca haveria de chegar ali, ao lado dele. Ela teve um sonho simples realizado. Se levantou pois tinha mais alguns pelos quais deveria correr muito ainda.

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