terça-feira, agosto 14

Parece não achar o seu lugar.


   Terça-feira. Eis que por mais uma noite me pego pensando sobre a vida. Tem sido semanas complicadas. Muita informação, muitas ações e parece que tudo só piora, só decresce. Onde vamos parar com toda essa falsa história de “tenho um objetivo”? Nem eu consigo mais acreditar nisso. Já fui uma atriz mais convincente, como quando eu disse a um cara que o amava com todo meu coração e sem ele a vida seria inútil. Ele acreditou. De inicio, até eu acreditei. Então surgiu outro cara que eu disse a mesma coisa e da mesma forma, acreditei antes de pedir ao garçom uma dose da melhor vodka que ele tinha.
   Uma vez, quando era pequena, mas bem pequena mesmo, com os meus 6 ou 7 anos, ouvi alguém dizer que a vida não passava de uma peça de teatro e que bastava a nós mesmos encenar da melhor forma possível nossa personagem para escolher nosso final. Acho que isso ficou no meu inconsciente e desde então, não parei de encenar. Eu seria uma boa atriz de palco, mas me cansaria disso, assim como me canso de tudo nesta vida. Desde que me conheço por gente, me dizem que eu tenho uma personalidade forte... Mas qual é a minha real personalidade? De tanto encenar personagens para a todos agradar, eu me perdi e me esqueci quem sou. E essa é uma ótima pergunta, pois para cada pessoa eu sou uma pessoa diferente. Não tenho mais uma personalidade minha. Para ser bem sincera, só sou eu mesma com dois seres viva nessa vida: meu melhor amigo e minha cachorra. Engraçado é amar meu melhor amigo como homem, ser “rejeitada” e ainda assim querer ele por perto. Minha cachorra, bom, eu dou comida e vou passear com ela; quando eu chego triste ou brava, ela pula em mim como se me abraçasse. Não sei o que é pior: chegar ao ponto de confiar sua vida a alguém que por mais que goste de você, uma hora vai se enjoar das suas crises de carência e se encher da sua ausência de amor próprio, ou se recusar a largar a vida por causa de um cão.
   Alcoolismo? É, talvez. Mas digo-lhes uma coisa, caso queiram saber: enquanto meu copo está cheio, minha cabeça está vazia de todos os problemas, de todas as chateações, de todas as tristezas e rejeições. Quando meu copo está vazio, vejo o quão sozinha vou ficando... Sem faculdade, sem namorado, sem cigarros, sem minha vodka, sem um trabalho, só esperando a vida passar. Esperando que comece um curso pelo qual eu lutei tanto e agora já não tenho mais certeza sobre ele.
   Assim como o rapaz me “rejeita”, vejo que faço o mesmo com a minha família. Eu os amo, muito, mas não me sinto parte deles. Não me sinto parte de nada. Não me sinto parte de ninguém. Não me sinto parte da minha própria pessoa. Meus amigos hão de se enjoar também de mim. Se Deus existe, ele também vai se enjoar de mim.
   Eu deveria estar feliz, não? Consegui meu curso, o primeiro passo do que eu planejei para a minha vida. Se o primeiro passo deu certo, isso quer dizer que todo o resto tende a dar também... Vivem dizendo como eu estou me destruindo com álcool, baladas, drogas e afins, mas nunca me dizem a receita da felicidade. Se me perguntarem se sou feliz, direi que sim, afinal as pessoas torcem para ouvir o quão ruim anda a sua vida e o quão desesperada você está. Cansei de dar esse gostinho para os outros. Cansei de fazer tudo à risca. Se eu quero beber, eu bebo sim senhor! E se eu quiser um sexo casual, eu vou chamar aquele amigo pra tomar um vinho. Também me cansei de me esconder atrás do que as pessoas dizem: “nossa, ela fala abertamente sobre sexo”, “nossa, ela diz que enche a cara”, “nossa, ela é falsa”. FALO SIM abertamente sobre sexo até porque é um dos maiores prazeres da vida. FALO SIM que eu bebo, encho a cara porque afinal de contas, é o único jeito que eu conheço de deixar os problemas de lado por algumas horas e arranjar novos problemas engraçados.
   As pessoas não se importam, realmente, com o carro do ano, a roupa da moda ou o último celular. As pessoas simplesmente não pensam, por isso não se importam. Elas tem uma sensação de superioridade por possuírem matéria de "primeira-linha", mas não é isso que forma um caráter. Não é isso que "faz" amor. 
   Pode não ter ficado com sentido algum, mas isso foi mais um desabafo. Estou cansada de pessoas me julgando por eu dizer o que penso, por eu não me vestir toda arrumadinha, por eu não seguir as regras sociais. Minha vida, minha escolha (contanto que eu não atrapalhe a sua). 
   Já ouvi que sou um bom exemplo, um mau exemplo, alguém a quem as pessoas poderiam se espelhar, alguém a quem a sociedade deveria excluir, um orgulho, uma pessoa desprezível. Me façam um favor: já que eu realmente me importo com todas essas opiniões, decidam-se! Estou quase tendo uma crise de personalidade já que cada hora eu sou alguma coisa para alguém. 

Ouvindo que faz parte desse jogo dizer ao mundo todo que só conhece o seu quinhão ruim

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